
As folhas caíam dia após dia num desassossego constante. As palmas das tuas mãos estavam frias e o teu olhar emitia um ar preocupado, absorvido dentro de uma realidade que consideravas ser já um estado natural.
Todos os dias acordavas, subias a persiana e vias o Sol raiar ao longe. No teu quarto, porém, já só entrava a brisa gelada do fim do dia com o cheiro a nostalgia de tempos passados.
Fazias a tua vida, uma rotina já incutida nas veias que corriam no teu corpo pesado, exausto, fatigado.
Contudo, havia momentos em que parecia que mudavas bruscamente e em que pensava que irias voltar a ti próprio, irias voltar a ser o que outrora tinhas manifestado.
Todavia, existem perdas irreversíveis que jamais permitem que voltemos a ser o que antes fomos. Por isso, o teu estado de outrora permanecia longe, num inconsciente profundo, recalcado por icebergs pontiagudos que não deixavam acordar-te para a realidade presente.
Há dias em que aquilo que ambicionamos ter fica guardado nos bolsos rotos das calças que vestimos. Existem momentos em que o Sol a raiar ao longe (momento único!), nos passa absolutamente ao lado, por em nós os raios luminosos estarem adormecidos, revestidos por um céu nublado.
Era assim que eu te enxergava agora, um ser humano nublado, com um destino marcado, numa rotina asfixiante em que não tinhas tempo para apreciar o que à tua volta se desenrolava.
És um vagabundo de ti próprio....Talvez saibas demais...
J.G
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